Século XXI

Resolveu que guardaria seu coração numa caixa, em um lugar seguro, pra não se ferir. Enterrou debaixo do salgueiro-chorão, na sepultura de sua avó. Quem mais poderia guardá-lo melhor?

Viveu sua vida tão bem quanto pode viver uma pessoa sem coração, sem remorsos ou tristezas, mas a curiosidade a fez querer rever seu precioso tesouro.

A tampa recém movida poderia indicar que algum admirador havia estado ali em busca de seu amor. Sentiu algo parecido com a felicidade ao pensar nisso.

Esqueceu-se que este é o século XXI, onde o amor é escrito com letra miúda no verso do contrato e os violadores de túmulos abundantes.

Em uma só manhã descobriu ter perdido o coração e a própria avó para algum estudante de medicina anônimo estudar Anatomia.

Decidiu ser doadora de órgãos depois do ocorrido.

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