O outro eu

A pele era a mesma,  morena salpicada com pintas esparsas. As mãos ainda sovavam a massa como antigamente, com força e destreza. Os pés cismavam em tropeçar em longas caminhadas, num conhecido balé. A fome por livros, chocolate e sushi permanecia igual. Sua banda favorita? Móveis, diria. Mas algo estava errado. A voz estava mais baixa, um pouco trêmula e insegura. Os olhos não tinham o brilho de antes, não tinham brilho algum. Pareciam cansados. Às vezes se fechavam e custavam a abrir, esperando , quem sabe, que um sono mais profundo a levasse a uma paz desconhecida. Talvez viver lhe fosse custoso, afinal  seus sorrisos pareciam esculpidos em gelo, duros e sem vida. E se desfaziam tão rapidamente no calor do Rio, que chegava-se  a acreditar que nem existissem. Porém havia algo mais, uma certa amargura, um quê de orgulho, como quem se vinga muito tempo depois, cumprindo um último desejo antes do fim.

Mal falava, mal sorria. Era como se não estivesse ali. Se o vento soprasse mais forte, cairia. O sol forte a evaporaria. Se o gato a mordesse, esvaziaria como um balão de festa. Talvez,  se se machucasse, muito seu grito de dor não soasse como o meu e então veriam. Como desejei que essas coisas lhe acontecessem, mas nada disso acontecia e ela continuava vivendo, apática, os meus sonhos e desejos, espantando meus queridos como se fossem fumaça ou insetos.

Do outro lado, eu. Muda, incapaz de gritar, de dizer: ‘Essa não sou eu! Não confiem nela e, por favor, me tirem daqui!’, assistindo a tudo horrorizada, trancada, do outro lado de mim mesma. Esse outro eu,  tão diferente de mim, ainda assim tão parecido. Enganou aos outros, enganou a mim. ‘Descanse um pouco, enquanto eu tomo conta de você’, ela parecia dizer.  A outra metade, sim, pois isso que éramos: metades. Perdido o equilíbrio, eu, a parte mais fraca (por que não admitir?), perdi também a guerra.

Fui covarde e me escondi. Deixei de cuidar do meu amor, dos meus amigos, da minha familia. Foi fácil esquecer que precisavam de mim, por que só o que eu via era a minha dor, o meu sofrimento. Não vi a sua dor, o seu choro, o seu sonho.

Pó. É o que resta de mim. Mas me resta também, senão a força, a vontade. De me resgatar, de voltar a mim, de voltar pro meu lugar. De cuidar de quem um dia, cuidou de mim.

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2 comentários sobre “O outro eu

  1. Frida seus textos são perfeitos , as palavras são perfeitamente colocadas .
    Adorei esse . ( esse e todos ) . Nunca pare de postar , rs .

    beijos . Débora Sangi

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