31 de março de 2012

Liberdade

Essa tal  liberdade. De acordar a hora que quero, escovar os dentes com menta ou açaí e sair. Mais cedo pra caminhar ou em cima da hora pra faculdade. Curso à minha escolha, monto meu horário e pronto. Ou ainda bater pontos, metas, recordes. Quem não quer ser o melhor e assim ser lembrado até o fim do mês que vem?

Falando coloquialmente. Escrevendo formalmente relatórios, testes, resumos, trabalhos seminários sob os olhares suspeitos de quem vê na ABNT a solução para a ignorância, caos e inércia no meio acadêmico. É tudo ou nada, mas eu tenho escolha, certo?

Se não tenho pães como biscoitos, pouco importa se tudo vem do trigo, do mesmo saco porque o que realmente importa é: eu tenho escolha.

Essa tal liberdade, falsa.  Que me prende sempre aos mesmos círculos me fazendo crer que realmente existe uma liberdade assim, insana. Rio intensamente, me virando na grama, rodando na roda, ad infinitum.

11 de março de 2012

Sobre poemas

Passei a noite trabalhando versos. Contei as sílabas, distribui a rimas  e dividi as estrofes. Tudo isso com ajuda do café. Numa pressão constante para que ficasse bem feito. Perfeito. Mais que perfeito.

Sonetos.

Decassílabos.

Românticos.

Vazios.

Pois que só quando nasceu o dia, o Sol vermelho em nuvens sem forma, percebi: nem métrica, nem rima, nem forma. Faltava o calor e a luz do Sol se infiltrando no mundo, trazendo à tona um sentimento maior que tudo que se conhecia até então. Algo capaz de criar a própria Vida.

Sol.

Calor.

Luz.

Paz.

Rasguei minhas folhas e contemplei mais um poema surgir.

11 de março de 2012

The girl with no name

O silêncio lá fora me apavora e não estou segura em mim mesma. Por dentro minha alma está gritando. Perdida nas memórias do que um dia eu fui, me encolho na escuridão esperando que alguém me encontre… ‘Quando isso vai acabar e dor enfim acabar?’ – me indago nua solidão devastadora que me assola o espírito.

 Só sinto seu frio no meu corpo. Minhas forças esvaíram-se. Eu não quero me entregar, mas consigo mais lutar. Hoje digo “adeus” para o vazio e parto. Só. Apesar de eu não ter errado, o mundo já está tão distante de mim. Se tudo isso não for mais que ilusão, ainda assim talvez encontre meu lugar, no fim.

(Fevereiro de 2008)

10 de março de 2012

Comme des enfants

Cavamos galerias atrás de minhocas, enterramos nossos tesouros, fazemos planos para as brincadeiras de amanhã e não posso me esquecer da bola. Com o sol quente ainda podemos tomar um sorvete no fim da rua, antes que a Realidade chegue.

Eu mal sei o que é preocupação, o mistério dos tatuzinhos nos parece tão mais sério que as noticias dos jornais.  Deitados na grama, eu cheia de folhas no cabelo, fitamos as nuvens. A verdadeira Ciência está em descobrir suas formas ocultas.

A brisa fresca me traz o canto de um passaredo distante. De pés descalços, correndo atrás dos cachorros até a exaustão. Por fim caímos exaustos e, com meus pequenos braços e os seus tão compridos, abraçamos o mundo, que é só nosso.

E assim ficamos, como crianças no jardim, esperando a hora de nossos pais nos buscarem.

10 de março de 2012

Baobás

Os efeitos  devastores da proliferação de baobás (Adansonia sp.) em pequenos asteróides são conhecidos no mundo desde o século XX. Mas seu crescimento no músculo estriado cardíaco era ignorado até a presente data quando três exemplares foram encontrados na biopsia da última Nobel de Medicina e da Paz, a dra. Frida O.

A comunidade científica crê que os implantes de baobás fora feitos pela dra. como tratamento alternativo a desilusões com a vida. Amigos e  familiares negam essa possibilidade e dizem que a fraternidade universal e o amor pela Ciência eram suas principais motivações para testar esse processo inusitado.

De toda a forma, o mundo lamenta a perda dessa grande mente.

8 de outubro de 2011

Fracasso

Ela sabia usar as palavras, pelo menos quanto se tratava de tirá-las de si e pô-las no papel. Montava seu quebra-cabeças nas folhas de um velho caderno. Com elas, imaginava ganhar o mundo inteiro. Mas isso foi há algum tempo.

Hoje só há um coração que ela quer tocar e mesmo assim… Seu antigo brinquedo, esquecido por aí, já perdeu muitas de suas peças. Palestrando com suas paredes brancas soa tão dadaísta que qualquer um que por lá passar, a julgará insana.

Agora me diga de que serviram tantas lágrimas, tinta e papel senão para ter o registro do seu fracasso?

7 de outubro de 2011

3:20 AM

Agora chega o arrependimento, de não ter dito tudo que eu pensava e sentia, de não ter mandado todas as cartas que eu escrevi para ti (não consigo acreditar que realmente as escrevi). O que fazer com essas pilhas de sentimentos manuscritos, coisas que hoje já perderam o sentido? Se mantê-las comigo me traz dor, queimá-las, tampouco me trará alivio. Talvez, se soubesses…

Os dias passam eu tento reverter tudo isso, mas cada palavra que eu digo te deixa cada vez mais distante. Deixando que a maré te leve para onde os pés não tocam o chão e é mais fácil se afogar. Tens medo de mim? Por que tão longe? Em arte de esquecimento tens se saído muito melhor que eu. Saiba que meus (nossos?) sonhos de Paris e Barcelona se recusam a morrer em mim. Aliás, qualquer  lembrança tua também.

Talvez eu seja só mais uma criança chorando por ter perdido seu brinquedo favorito, mas o vazio e a dor que me causas não se justificaria.

Me ocupa a mente de tal forma que não consigo dormir. Me remexo na cama como se com uma mudança de posição me fizesse esquecer de ti. As lágrimas me banham o rosto madrugada afora e só o sono parece contê-las. Com o dia claro, rabisco seu nome sem parar, distraída. Não penso nem como direito pois, em todo tempo que tenho, me empenho em achar uma solução para nós.

Chame como quiser, mas, por favor, me chame pra junto de ti.

7 de outubro de 2011

Sobremesa

Ele costumava alegrar o meu dia. Não importava o quanto o dia estivesse cinza, pois com ele, todo dia era primavera. Sabia me fazer rir, me tirar do sério, me fazer melhor. Eu era parte dos seus sonhos e não me importava que não fosse real, estar com ele era tudo (ainda é).

Por onde quer que eu fosse, o encontrava. Dentro dos meus livros (era o próprio Rei Vermelho), nas música e filmes, nos sinais nas ruas, encontrava seu nome em meio as rachaduras de um velho prédio. E a lua que eu via sentada na janela certamente era a mesma que ele avistava tão perto do mar. Não daria para acreditar que tantas montanhas, vales, rios e quilômetros nos separassem.

Hoje ele não pôde vir me ver e foi tão triste. Até as estrelas andaram sumidas. Às vezes as coisas não dão muito certo conosco.  Mas eu ainda sou sua bonequinha e sei que qualquer brisa espanta essa neblina que nos ronda. Isso é só mais uma dessas alegrias que a gente adia, reservando a melhor parte pra mais tarde, como a sobremesa depois do almoço. Afinal, te ver sempre foi a parte mais gostosa do meu dia.

7 de outubro de 2011

Sono

Já não há quem vele por mim e a noite fechada me assombra. Vejo sombras nas paredes e rostos na janela. Mãos me puxam e apertam vindas da minhas cobertas. O teto parece desabar sobre mim. Eu já não durmo.

Não é difícil cair no sono. Não é difícil fechar os olhos e esquecer do mundo, mas se eu o fizesse, ao abri-los novamente, você ainda estaria aqui? Pelo menos me esperaria para uma despedida ou seria meu fechar de pálpebras o nosso adeus?

Estou tão cansada. Fico acordada, temendo te perder entre um sonho e outro… Não sei se irei aguentar.

21 de julho de 2011

Medo

 

Éramos tão ligados e a tanto tempo. Passamos por muitas coisas juntos, coisas tão dolorosas que se sem ele eu não teria como me defender. Nessas horas eu sou tão frágil… Vamos, não pense que sou feita de cristal, não mesmo, mas há horas que precisamos de ajuda e lá estava ele, sempre junto a mim. Bem junto a mim. Com ele eu evitava o que me fazia mal. E foi assim, por tantos anos que minha vida sem ele parecia pouco mais que um vulto apagado. Pouco mais que uma lembrança distante.  Uma outra vida, vivida há eras.

Era quase certo que devia me sustentar. Havia um elo, uma sociedade criada ao acaso, uma descoberta mútua, onde ambos deveriam se beneficiar. Uma adaptação evolutiva que criou, Darwin explicou-me. Pois que seja, estou muito bem com ele, não é mesmo? Visto-o como uma capa, uma armadura invisível, colada ao corpo. Não o tiro pra nada, mas talvez ele se solte um pouco durante o sono, durante os sonhos. Tenho a impressão e estar sonhando e, ao o procurar, bem, ele não estava mais comigo. Pelo menos, não ligado a mim. Talvez seja por isso que eu não sonhe mais. É assim que ele me protege dos sonhos. Ele está me protegendo do sonhos, não é mesmo?

Ele existe para o meu bem, eu sei disso. Eu realmente não sei.

 

Eu mal consigo me mover. Eu posso ser forte sem que me aperte tanto. Eu posso fechar os olhos e não temer a escuridão. Posso conhecer a liberdade.  Quantas vezes você me impediu de sonhar, de viver algo arriscado, mas que poderia me recompensar com alegrias superiores a tudo que já experimentei até então? Sua redoma de vidro está cada vez menor, já não vê que seus cuidados me sufocam? Medo.

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